Ratinho vende Sandro Alex como único preparado, mas esquece que antes do governo nunca geriu nada além do próprio sobrenome
O governador Ratinho Júnior resolveu tirar o pé da administração e pisar de vez no palanque. Em vídeo publicado nas redes sociais, entrou de cabeça na campanha de Sandro Alex, distribuiu recados e, sem citar nomes, deixou no ar uma crítica que tinha endereço certo: Sergio Moro e Rafael Greca.
A resposta veio rápida. Greca, com seu estilo já conhecido, gravou vídeo lembrando que foi três vezes prefeito de Curitiba, destacou sua experiência administrativa e ainda usou uma panela de pressão como símbolo para ironizar o que chamou de “pressão na cabeça dos prefeitos”. Traduzindo do grequês para o português claro: o recado foi para o Palácio Iguaçu.
Mas o ponto mais curioso dessa guerra de vídeos não está nem na troca de farpas. Está no papel escolhido por Ratinho Júnior: o de fiscal da experiência alheia. E aí mora a ironia.
Ratinho nunca foi prefeito. Nunca administrou uma cidade. Nunca teve que lidar diretamente com o caos urbano de uma capital, com a pressão diária de posto de saúde, buraco em rua, transporte coletivo, creche, enchente, coleta de lixo e a cobrança imediata da população na porta da prefeitura. Sua estreia no Executivo não foi numa prefeitura do interior, nem numa vice-prefeitura, nem em qualquer gestão municipal. Foi direto no elevador da política paranaense, embalado pelo sobrenome que já chegava pronto em qualquer canto do estado.
Antes de ser governador, a grande credencial eleitoral de Ratinho Júnior era ser o filho do Ratinho. E isso não é ofensa, é biografia. O sobrenome pesou, a estrutura ajudou, a exposição nacional do pai abriu portas e consolidou um capital político que muitos levam décadas para construir. Depois, claro, Ratinho virou governador, ganhou musculatura política e montou seu grupo. Mas daí a posar como dono do certificado de “quem pode” ou “quem não pode” governar o Paraná já é um salto de arrogância.
Se o argumento agora é experiência de gestão, convém combinar o jogo com os fatos. Rafael Greca foi prefeito de Curitiba três vezes. Sergio Moro pode ser criticado por muita coisa, mas não por falta de densidade política ou capacidade de articulação. E outros nomes que circulam no tabuleiro de 2026 também têm trajetória administrativa ou institucional. Ratinho, por sua vez, quer desqualificar adversários justamente no terreno em que nunca pisou: o da gestão municipal.
Fica parecendo aquela velha cena da política brasileira: o sujeito sobe no palco, pega o microfone e começa a dar aula sobre uma matéria que nunca cursou. Ratinho governa o estado, sim, e isso lhe dá peso político. Mas não lhe dá o direito de reescrever a própria história para posar como veterano de prefeitura. Não é.
No fim, o vídeo do governador diz menos sobre os adversários e mais sobre ele mesmo. Mostra um Ratinho Júnior cada vez mais empenhado em conduzir a sucessão de 2026 no grito, na indireta e no uso da máquina política do grupo. Mostra também um governador que parece incomodado com o fato de que, desta vez, pode haver nomes com tamanho, currículo e voto para enfrentá-lo — ou enfrentar o seu candidato — de igual para igual.
Talvez por isso o tom tenha subido. Talvez por isso a necessidade de entrar na campanha antes da hora, distribuir cutucadas e tentar carimbar adversários como se fosse o único habilitado a falar de gestão. O problema é que, quando Ratinho tenta vender essa imagem de autoridade absoluta sobre experiência administrativa, a própria trajetória vira contra ele.
Porque, no fim das contas, a pergunta continua de pé: governador, com que propriedade o senhor quer desmerecer a experiência dos outros em prefeitura, se o senhor mesmo nunca governou uma cidade sequer?
No Paraná, pelo visto, a nova moda é essa: quem nunca foi prefeito agora quer dar aula para ex-prefeito.