ELEIÇÕES 2026 – PARANÁ – POLÍTICA

O luxo de se reconhecer no espelho

Em mais de 15 anos de profissão, uma cena se repete: alguém se senta na minha cadeira com uma foto no celular. Às vezes é uma atriz, às vezes uma influenciadora, às vezes uma noiva que ela viu na internet. O pedido costuma ser o mesmo: “quero ficar assim”.

Eu entendo. Crescemos cercadas de referências que ensinam que a beleza tem um formato só, e os filtros das redes sociais levaram essa ideia ao extremo. Basta rolar a tela por alguns minutos para perceber como os rostos começaram a ficar parecidos. E, quando todas querem o mesmo rosto, cada uma corre o risco de perder o seu.

Mas existe um momento que me diz se o trabalho deu certo: quando a cliente, já pronta, se olha no espelho. Se ela diz “nem pareço eu”, alguma coisa se perdeu no caminho. Se ela sorri e diz “sou eu, no meu melhor dia”, aí sim.

O visagismo, base do meu trabalho, parte dessa premissa. Antes do pincel e da cor, eu observo o formato do rosto, os traços, a expressão, o jeito como a pessoa fala e se movimenta. Cada linha comunica alguma coisa: uma sobrancelha mais reta transmite firmeza; uma curva suave, delicadeza. A maquiagem pode reforçar quem a pessoa é ou brigar com isso.

Com as cores, acontece o mesmo. Na coloração pessoal, o objetivo é encontrar os tons que iluminam o rosto em vez de apagá-lo. Com a cor certa, a pele descansa, o olhar ganha força e a pessoa aparece antes da maquiagem.

Foi preparando mais de 400 noivas que eu entendi o tamanho disso. O casamento é um dos dias mais marcantes e mais fotografados da vida, e essas imagens atravessam décadas. Nenhuma noiva quer olhar o álbum daqui a vinte anos e enxergar a tendência de uma estação. Ela quer se ver ali, emocionada, do jeito que é. Com o tempo, percebi que esse desejo não é só de quem vai ao altar. É o mesmo da mulher que se prepara para uma entrevista, que troca a foto do perfil ou que só quer se olhar no espelho numa terça-feira comum e gostar do que vê.

Por muito tempo, luxo foi sinônimo de exclusividade: a marca cara, o acesso restrito, aquilo que poucos podiam ter. Hoje, com tanta coisa produzida em série, inclusive rostos, o que ficou raro é a autenticidade: ter uma imagem que conversa com a própria trajetória, com as origens, com a fase da vida que se está vivendo. Uma imagem que dispensa legenda para dizer quem você é.

Tendências continuam bem-vindas, desde que entrem como ferramenta, e não como uniforme. Um batom vermelho pode ser perfeito quando combina com o seu momento. Quando está ali só porque todo mundo está usando, vira fantasia. A pergunta que vale fazer é simples: isso conversa com você? Maquiagem, cabelo e cor são linguagem, e cada mulher tem o direito de escrever a própria frase.

No fim, meu trabalho é ajudar cada mulher a se reconhecer no espelho. Talvez o verdadeiro luxo não seja parecer outra pessoa, mas ter liberdade para que a nossa imagem finalmente conte a nossa própria história.

Larissa Maldaner é maquiadora e visagista, especialista em coloração pessoal e noivas

RELACIONADAS

O mesmo produto, outro sabor: o que muda quando comemos na Itália

O mesmo produto, outro sabor: o que muda quando comemos na Itália

Depois de 27 anos vivendo na Itália, algumas diferenças já se tornaram tão naturais para mim que muitas vezes só volto a…

Crise no Agro, risco de inadimplência, e a aderência a novos empréstimos. Como será a vida do produtor rural na Safra 2027/2028?

Crise no Agro, risco de inadimplência, e a aderência a novos empréstimos.…

A safra 2027/2028 poderá ser marcada pelo “fim do crédito fácil”, dando origem ao temido período pós-crise. Atualmente, as dívidas oriundas de…

O luxo de se reconhecer no espelho

O luxo de se reconhecer no espelho

Em mais de 15 anos de profissão, uma cena se repete: alguém se senta na minha cadeira com uma foto no celular.…