Em mais de 15 anos de profissão, uma cena se repete: alguém se senta na minha cadeira com uma foto no celular. Às vezes é uma atriz, às vezes uma influenciadora, às vezes uma noiva que ela viu na internet. O pedido costuma ser o mesmo: “quero ficar assim”.
Eu entendo. Crescemos cercadas de referências que ensinam que a beleza tem um formato só, e os filtros das redes sociais levaram essa ideia ao extremo. Basta rolar a tela por alguns minutos para perceber como os rostos começaram a ficar parecidos. E, quando todas querem o mesmo rosto, cada uma corre o risco de perder o seu.
Mas existe um momento que me diz se o trabalho deu certo: quando a cliente, já pronta, se olha no espelho. Se ela diz “nem pareço eu”, alguma coisa se perdeu no caminho. Se ela sorri e diz “sou eu, no meu melhor dia”, aí sim.
O visagismo, base do meu trabalho, parte dessa premissa. Antes do pincel e da cor, eu observo o formato do rosto, os traços, a expressão, o jeito como a pessoa fala e se movimenta. Cada linha comunica alguma coisa: uma sobrancelha mais reta transmite firmeza; uma curva suave, delicadeza. A maquiagem pode reforçar quem a pessoa é ou brigar com isso.
Com as cores, acontece o mesmo. Na coloração pessoal, o objetivo é encontrar os tons que iluminam o rosto em vez de apagá-lo. Com a cor certa, a pele descansa, o olhar ganha força e a pessoa aparece antes da maquiagem.
Foi preparando mais de 400 noivas que eu entendi o tamanho disso. O casamento é um dos dias mais marcantes e mais fotografados da vida, e essas imagens atravessam décadas. Nenhuma noiva quer olhar o álbum daqui a vinte anos e enxergar a tendência de uma estação. Ela quer se ver ali, emocionada, do jeito que é. Com o tempo, percebi que esse desejo não é só de quem vai ao altar. É o mesmo da mulher que se prepara para uma entrevista, que troca a foto do perfil ou que só quer se olhar no espelho numa terça-feira comum e gostar do que vê.
Por muito tempo, luxo foi sinônimo de exclusividade: a marca cara, o acesso restrito, aquilo que poucos podiam ter. Hoje, com tanta coisa produzida em série, inclusive rostos, o que ficou raro é a autenticidade: ter uma imagem que conversa com a própria trajetória, com as origens, com a fase da vida que se está vivendo. Uma imagem que dispensa legenda para dizer quem você é.
Tendências continuam bem-vindas, desde que entrem como ferramenta, e não como uniforme. Um batom vermelho pode ser perfeito quando combina com o seu momento. Quando está ali só porque todo mundo está usando, vira fantasia. A pergunta que vale fazer é simples: isso conversa com você? Maquiagem, cabelo e cor são linguagem, e cada mulher tem o direito de escrever a própria frase.
No fim, meu trabalho é ajudar cada mulher a se reconhecer no espelho. Talvez o verdadeiro luxo não seja parecer outra pessoa, mas ter liberdade para que a nossa imagem finalmente conte a nossa própria história.
Larissa Maldaner é maquiadora e visagista, especialista em coloração pessoal e noivas