Com Duna: Parte Três previsto para dezembro, a saga de Denis Villeneuve volta ao centro do debate sobre ficção científica e política
Desde que Frank Herbert publicou Duna, em 1965, a saga do planeta desértico Arrakis é lida como muito mais do que uma aventura espacial. Por trás de vermes gigantes e batalhas no deserto, o livro discute religião, colonialismo, ecologia e, sobretudo, os perigos do poder concentrado nas mãos de um líder carismático.
A adaptação de Denis Villeneuve deixou esse debate ainda mais visível em Duna: Parte Dois (2024). No filme, Paul Atreides (Timothée Chalamet) se integra aos Fremen, povo nativo de Arrakis, e passa a ser visto como o messias de uma profecia plantada séculos antes pela ordem Bene Gesserit como ferramenta de controle. A produção venceu os Oscars de Melhores Efeitos Visuais e Melhor Som.
A grande virada está na forma como o roteiro trata essa ascensão. Chani (Zendaya) funciona como a consciência crítica da história: desconfia da profecia e enxerga no fervor religioso um instrumento de dominação. Herbert costumava dizer que escreveu a saga como um alerta contra heróis messiânicos.
O filme também trata da exploração de recursos. A especiaria melange, extraída de Arrakis, move a economia do império e justifica a ocupação violenta do planeta, uma alegoria frequentemente associada à disputa pelo petróleo no século 20.
Duna está longe de ser exceção. A ficção científica sempre funcionou como laboratório político. Metrópolis (1927) já discutia a luta de classes, e Filhos da Esperança (2006) imaginou um mundo em colapso que trata refugiados como ameaça. O brasileiro Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, usou um futuro próximo para falar de violência, apagamento e resistência no sertão.
A discussão deve ganhar novo fôlego com Duna: Parte Três, previsto para chegar aos cinemas brasileiros em 17 de dezembro de 2026. O longa adapta Messias de Duna, livro em que Herbert mostra Paul já como imperador, lidando com as consequências da guerra santa que ajudou a desencadear.
Antes da estreia, revisitar o segundo filme é a melhor preparação. A história termina exatamente quando o herói conquista o trono, e o preço dessa vitória ainda está por vir.