O aumento no preço do diesel anunciado pela Petrobras caiu como um balde de água fria no Palácio do Planalto — justamente no momento em que o governo tentava mostrar reação à escalada dos combustíveis.
A poucos dias da saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda, cresce nos bastidores a preocupação com um risco que o país conhece bem: a ameaça de greve de caminhoneiros.
Embora não haja paralisação confirmada, o tema passou a ser tratado como prioridade máxima dentro do governo. A avaliação é de que qualquer mobilização da categoria pode rapidamente ganhar escala nacional, com impactos diretos na inflação e no abastecimento — além de efeitos políticos em ano eleitoral, atingindo tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto o próprio Haddad, que se prepara para disputar o governo de São Paulo.
O problema central, admitem interlocutores, é a falta de interlocução. Sem lideranças nacionais consolidadas, os caminhoneiros se organizam de forma fragmentada, mas altamente eficaz por meio de redes sociais e aplicativos de mensagem — o que dificulta negociações e amplia o potencial de mobilização.
Medida perde força antes de surtir efeito
A tentativa do governo de conter a alta veio com a MP 1340/2026, que zerou PIS/Cofins sobre o diesel até o fim do ano. O gesto, no entanto, foi rapidamente ofuscado: dias depois, a Petrobras anunciou reajuste de R$ 0,38 por litro nas distribuidoras, refletindo o avanço do petróleo no mercado internacional.
Dentro do governo, o timing gerou irritação. A leitura é de que a medida provisória pode perder eficácia antes mesmo de chegar ao consumidor final, enfraquecendo o discurso de resposta rápida à crise.
Fantasma de 2016 volta ao radar
O receio de uma paralisação remete diretamente à crise vivida no governo Michel Temer, quando uma greve de caminhoneiros paralisou o país por dias e afetou até o PIB. Nos bastidores, a ordem é evitar qualquer repetição daquele cenário.
Para isso, o governo já prepara uma estratégia de comunicação. A ideia é reforçar que não houve inércia diante da alta internacional dos combustíveis e, ao mesmo tempo, dividir a responsabilidade com os estados.
Pressão sobre governadores
Outro eixo do discurso será a cobrança por redução do ICMS. O primeiro sinal, porém, foi negativo: o Comsefaz rejeitou o pedido de corte no imposto estadual, citando perdas de arrecadação.
O impasse também adiciona um componente político, especialmente em São Paulo, onde Haddad deve enfrentar o atual governador Tarcísio de Freitas nas eleições.
Fiscalização e tentativa de conter abusos
Para reforçar o pacote, o governo aposta na fiscalização. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) já definiu novas regras que obrigam postos a informar, de forma visível, os subsídios concedidos ao diesel, numa tentativa de coibir aumentos considerados abusivos.
Ao mesmo tempo, foi criada uma sala de monitoramento do abastecimento, com acompanhamento diário do mercado.
Ainda assim, no Planalto, o diagnóstico é claro: mais do que medidas técnicas, o momento exige habilidade política — especialmente diante de uma categoria capaz de parar o país mesmo sem liderança centralizada.



