ELEIÇÕES 2026 – PARANÁ – POLÍTICA

A taça que virou rotina: os anestésicos silenciosos do esgotamento .

Álcool no fim do dia, rolagem infinita, compras por impulso. Recursos socialmente aceitos que aliviam a noite e cobram a conta no dia seguinte.

A frase costuma vir acompanhada de um sorriso, como quem antecipa um julgamento que não virá: “não é nada demais, doutora, só uma taça no fim do dia para desligar”. Pergunto há quanto tempo. A resposta, com frequência, é: todos os dias, há uns dois anos. E nesse ponto já não estamos falando sobre bebida. Estamos falando sobre o que acontece com uma pessoa que precisa de ajuda externa para conseguir desacelerar.

Quero ser clara quanto ao enquadramento: isto não é um texto moral. O esgotamento produz uma demanda fisiológica urgente por alívio, e existem recursos amplamente disponíveis e socialmente aprovados que entregam esse alívio em minutos. Álcool à noite, horas de rolagem na tela, compras por impulso, comida usada como regulação emocional. Eles não são escolhas absurdas. São escolhas eficientes — e é exatamente por isso que se repetem.

O mecanismo é honesto no curto prazo. Um sistema nervoso que passou o dia inteiro em ativação encontra nesses recursos uma redução rápida da tensão e uma recompensa imediata. Para alguém sem energia sobrando, qualquer alternativa que exija esforço — caminhar, conversar, cozinhar, ler — perde a disputa antes de começar. Não é falta de disciplina. É um cálculo de custo feito por um organismo em déficit.

A conta, no entanto, chega pela via mais sensível de todas: o sono. O álcool costuma encurtar o tempo até adormecer, o que dá a impressão de que está ajudando, mas fragmenta a segunda metade da noite, aumenta os despertares e reduz a fase mais restauradora do sono. A pessoa dorme pior justamente na noite em que mais precisava reparar. As telas operam pelo outro extremo, atrasando o início do sono e prolongando a ativação em um corpo que já não estava desacelerando.

Fecha-se então um ciclo previsível: sono pior, menos tolerância no dia seguinte, mais tensão acumulada à noite e maior necessidade do mesmo recurso para conseguir parar. O que começou como alívio ocasional vira estrutura da rotina, e a pessoa passa a atribuir à idade, ao trabalho ou à própria natureza um cansaço que está sendo produzido todas as noites.

Alguns marcadores ajudam a distinguir hábito de sinal de alerta, e nenhum deles tem a ver com quantidade absoluta. O primeiro é a perda de escolha: o recurso deixou de ser uma opção entre outras e virou a única forma de encerrar o dia. O segundo é o aumento progressivo, em dose ou em frequência, para obter o mesmo efeito. O terceiro é a presença de culpa ou de ocultação. E o quarto, o mais importante: a impossibilidade de desacelerar sem ele.

Entre os 40 e os 60 anos, essa equação muda de peso. O álcool interage com um sono que já tende a ser mais fragmentado nessa fase, pode intensificar sintomas vasomotores como ondas de calor e suores noturnos, afeta o humor e interage com medicamentos de uso contínuo. O mesmo hábito que parecia inofensivo aos 30 passa a cobrar visivelmente mais caro — e muitas mulheres percebem essa mudança sem conseguir explicá-la.

O que funciona, na prática, raramente é força de vontade. É entender qual função aquele recurso está cumprindo. Se ele está resolvendo a ausência de transição entre o trabalho e a casa, o alvo é criar essa transição. Se está resolvendo solidão, o alvo é outro. Se está resolvendo dor, insônia ou ansiedade instalada, estamos diante de sintomas que pedem avaliação, e não de um hábito a ser corrigido pela disciplina. Retirar o recurso sem substituir a função é o caminho mais curto para a recaída.

Existe ainda um par que costuma operar em conjunto e raramente é examinado: a cafeína pela manhã e o álcool à noite. Uma serve para compensar o sono que não houve, o outro para interromper a ativação que sobrou. O primeiro atrasa o adormecer da noite seguinte; o segundo piora a qualidade do sono que vier. No dia seguinte, a dose de cafeína precisa ser um pouco maior. É um circuito fechado, construído sem intenção nenhuma, que muita gente sustenta durante anos sem perceber que as duas pontas se alimentam.

A comida entra pela mesma porta, e com uma camada adicional de culpa. Comer à noite, depois que a casa silencia, costuma ser o único momento do dia em que aquela mulher faz algo exclusivamente para si. Não é fome: é a única janela de prazer numa rotina organizada em função dos outros. Tratar isso como indisciplina alimentar erra o alvo — o que precisa mudar não é o cardápio, e sim a ausência de espaço próprio no dia.

Uma última observação, dirigida a quem está lendo e se reconheceu: vale levar esse assunto à consulta exatamente como ele acontece, sem arredondar. Omitir a frequência real por antecipar julgamento é comum e prejudica a avaliação, porque o uso de álcool interage com sono, humor, sintomas da transição hormonal e medicações eventualmente em curso. Essa informação não serve para condenar ninguém. Serve para entender o que está sendo tratado — e o que ainda não está.

Nada disso é falha de caráter. É uma tentativa legítima de autorregulação em um corpo que está pedindo socorro do jeito que consegue. O problema é que anestesia não trata — apenas garante que a dor continue chegando, todas as noites, um pouco mais cedo.

Dra. Rochelle Marquetto é médica psiquiatra — CRM-RS 39448 · RQE 43138 — e atua com abordagem integrativa no cuidado de quadros de esgotamento. Contato: (21) 96832-9009.

RELACIONADAS

Candidatos ao GDF intensificam campanha no último sábado antes da eleição

Candidatos ao GDF intensificam campanha no último sábado antes da eleição

No último sábado antes do primeiro turno das eleições, candidatos ao Governo do Distrito Federal realizam uma série de eventos para conquistar…

Mulher processa plataforma de apostas após prejuízo de R$ 100 mil com transtorno do jogo

Mulher processa plataforma de apostas após prejuízo de R$ 100 mil com…

Uma mulher diagnosticada com transtorno do jogo patológico acionou a Justiça do Distrito Federal contra uma plataforma de apostas, alegando ter perdido…

Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas fazem breve aparição em evento em Jaguariúna

Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas fazem breve aparição em evento em…

Em um evento de rodeio em Jaguariúna, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas realizaram discursos curtos para reforçar a campanha do senador.…