O medo da terapia hormonal ficou famoso. O preço de não se fazer o tratamento,
quando indicado, quase nunca e falado.
Você provavelmente já ouviu que terapia hormonal "causa câncer". De uma amiga, de
um médico apressado ou de uma manchete de vinte anos atrás. O que quase ninguém
conta é que existe uma conta do outro lado: atravessar dez, quinze anos de perda óssea
acelerada, noites picadas e sintomas não tratados como se isso fosse neutro. Não é.
Em 2017, o JAMA publicou o seguimento de 18 anos do maior ensaio clínico
randomizado já feito sobre o assunto, o Women's Health Initiative. O achado que
raramente vira manchete: a mortalidade por todas as causas foi praticamente idêntica
entre quem usou hormônios e quem usou placebo. Entre as mulheres que começaram o
tratamento dos 50 aos 59 anos, a mortalidade durante o período de uso foi cerca de 30%
menor. O estudo que assustou uma geração é hoje um dos que melhor delimitam para
quem o tratamento é seguro.
Fogacho não é vaidade ou apenas desconforto. É um sintoma neurovascular que
fragmenta o sono noite após noite, e sono picado por anos cobra caro do humor, da
pressão e da capacidade de trabalhar. Tratar sintoma moderado a intenso pode estar
ajudando seu cérebro a não “fritar” com uma onda de calor.
No osso, a evidência é mais firme. No braço principal do mesmo estudo, publicado no
JAMA em 2002, houve redução de cerca de um terço nas fraturas de quadril e de um
quarto nas fraturas em geral. Ensaio randomizado, não impressão clínica: a perda óssea
dos primeiros anos após a menopausa é real, silenciosa e, em parte, modificável.
O coração pede mais nuance, e a nuance tem nome: idade. Quando o tratamento começa
perto da menopausa, os dados são tranquilizadores. Quando começa com mais de uma
década, o mesmo medicamento se comporta de outro jeito. Não é o hormônio que é bom
ou ruim. É a janela de oportunidade para se iniciar.
Sobre memória, perder a função ovariana aos 38 anos não é a mesma coisa que perdê-la
aos 51. Na menopausa precoce e na retirada dos ovários antes dos 45, repor hormônios
até a idade natural da menopausa é conduta mandatória! —não tratar que carrega risco,
inclusive cognitivo.
Nada disso quer dizer que toda mulher deva tratar. Quer dizer que não tratar também é
uma decisão clínica, com consequências, e merece a mesma investigação e cuidado que
damos à receita. Se os fogachos roubam o seu sono, se você entrou na menopausa cedo,
vale sentar-se com um médico que conheça esses estudos e fazer as duas contas: a de
fazer e a de não fazer.
Dra. Mariana Halla — médica especialista em saúde feminina, menopausa e
longevidade.
Sources: JAMA — Menopausal Hormone Therapy and Long-term All-Cause and
Cause-Specific Mortality · WHI — resumo dos desfechos dos braços CEE+MPA e CEE
isolado · JAMA — WHIMS, estrogênios conjugados e demência provável · Análise
secundária do WHI em mulheres com sintomas vasomotores (2025)
Rocca et al., Neurology 2007 — ooforectomia pré-menopausa e demência · KEEPS
Continuation, PLOS Medicine 2024 · WHIMS, JAMA 2004 · UK Biobank —
menopausa, ooforectomia e demência
